PORQUE OS MANGÁS SÃO IMPORTANTES

O que os mangás mais vistos da última década têm a dizer sobre filosofia



Nos últimos dez anos, um punhado de mangás deixou de ser assunto de nicho e passou a definir a cultura pop mundial: One Piece segue, isolado, no topo histórico de vendas; Kimetsu no Yaiba (Demon Slayer) nasceu em 2016 e em menos de uma década já figura entre os mais vendidos de todos os tempos; Shingeki no Kyojin (Attack on Titan) encerrou sua história em 2021 depois de reconfigurar o que se espera de uma narrativa de ação; Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man, My Hero Academia, Spy x Family e, mais recentemente, Frieren: Beyond Journey's End dominaram rankings de vendas e telas de streaming ano após ano.


A tentação, diante desse fenômeno, é tratá-lo como puro entretenimento — divertido, mas sem substância para quem pensa filosofia. Este texto discorda dessa tentação. Não porque todo mangá seja profundo (não é), mas porque os que mais marcaram a última década o fizeram, em boa parte, ao tropeçar — às vezes deliberadamente, às vezes não — em perguntas que a filosofia vem fazendo há séculos. Vale olhar para seis delas.


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One Piece e a liberdade como travessia, não como ponto de chegada



A obra mais vendida da história do mangá tem, no centro, uma ideia simples de enunciar e difícil de viver: Luffy não quer ser rei dos piratas por poder, riqueza ou fama — as três coisas que o próprio roteiro afirma, seguidas, que o antigo rei dos piratas deixou para trás. Ele quer a liberdade que a travessia representa, não o troféu no fim dela.
Essa distinção ecoa uma discussão recorrente na filosofia da liberdade: existe uma diferença entre liberdade negativa (ausência de impedimentos externos) e algo mais próximo de uma liberdade existencial, vivida no próprio ato de escolher e agir, independentemente do resultado. One Piece dramatiza, ao longo de mais de mil capítulos, um mundo estruturado por um Governo Mundial que distribui poder e legitimidade de cima para baixo — uma alegoria bastante direta do tipo de poder disciplinar que Michel Foucault descreveu: não apenas a força bruta, mas todo um sistema de classificação (piratas, marinha, revolucionários, "gente do céu") que decide, de antemão, quem pode ser o quê. A trama inteira pode ser lida como uma longa recusa dessa classificação — não através de um discurso teórico, mas através da simples obstinação de personagens que insistem em definir a si mesmos por fora das categorias que lhes foram dadas.
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Attack on Titan e o problema hobbesiano dentro dos muros

Poucas obras da década provocaram tanto debate quanto o final de Shingeki no Kyojin. Por trás da ação, a série é, desde o primeiro capítulo, uma reencenação quase didática do estado de natureza de Thomas Hobbes: uma humanidade encurralada, vivendo atrás de muros por medo constante da morte violenta, dependente de uma autoridade central para conter esse medo — e disposta a sacrificar verdade e liberdade individual em troca de segurança.
O que torna a obra filosoficamente mais interessante que uma simples ilustração de Hobbes é a virada que ela dá quando os muros caem: descobre-se que o medo do "outro" (os titãs) foi, o tempo todo, cultivado por decisões humanas, não uma condição natural imutável. Isso desloca a leitura para outro território — mais próximo de Hannah Arendt e sua análise de como sistemas inteiros de violência dependem menos de monstros excepcionais do que de burocracias e narrativas comuns, repetidas geração após geração até parecerem naturais. O ciclo de ódio que a série descreve — cada geração herdando o trauma da anterior e retransmitindo-o à seguinte — é uma tese sobre historicidade e responsabilidade coletiva que poucos mangás de ação ousaram sustentar até o fim.


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Demon Slayer e a compaixão como resposta ao ressentimento

Kimetsu no Yaiba poderia ter sido apenas mais uma história de vingança: um garoto cuja família foi massacrada por demônios se torna caçador de demônios. O que diferencia a obra — e provavelmente explica parte de seu sucesso mundial — é que ela recusa sistematicamente transformar essa vingança em ódio puro. Tanjiro, o protagonista, é retratado repetidas vezes sentindo compaixão pelos próprios demônios que precisa derrotar, buscando entender a dor que os transformou no que são antes de encerrar sua existência.
Há aqui uma ressonância clara com a ética budista que permeia boa parte da cultura japonesa contemporânea: a ideia de que o sofrimento (dukkha) tem uma origem rastreável, e que a compaixão (karuna) não é fraqueza diante do mal, mas a única resposta capaz de romper o ciclo de reprodução do próprio mal — um contraponto direto ao modelo de vingança linear tão comum em narrativas ocidentais de ação. Ao mesmo tempo, a obra também levanta, sem resolver completamente, um problema clássico da filosofia moral: até que ponto compreender a origem do sofrimento de alguém deveria mudar o julgamento sobre os atos que esse sofrimento produziu?

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Jujutsu Kaisen e as maldições como fenomenologia do ressentimento coletivo

Em Jujutsu Kaisen, as "maldições" (curses) não são entidades sobrenaturais aleatórias — são explicitamente descritas como manifestações de emoções humanas negativas acumuladas: vergonha, inveja, ódio, medo, concentrados até ganharem forma e força próprias. É uma premissa narrativa que funciona quase como uma fenomenologia aplicada: o mal não é uma substância externa e estranha ao humano, é uma sedimentação daquilo que os próprios humanos sentem e não processam.
Essa ideia tem parentesco com leituras existencialistas do mal como ausência ou distorção (privatio boni, na tradição agostiniana, reformulada em chave moderna) mais do que como força positiva independente. A força antagonista mais icônica da série, inclusive, é definida por seu próprio criador como a personificação do ressentimento coletivo da humanidade — uma escolha que torna literal algo que filósofos da técnica e da sociedade de massas, de Nietzsche a pensadores contemporâneos do ressentimento social, já vinham descrevendo em registro mais abstrato.

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Frieren e o tempo que só aprendemos a ler depois que passa

Se há um mangá da década que dialoga quase ponto a ponto com a fenomenologia da temporalidade, é Frieren: Beyond Journey's End. A premissa é enganosamente simples: uma maga élfica, praticamente imortal, que passou décadas ao lado de um grupo de heróis humanos sem nunca refletir sobre a finitude deles, só começa a compreender o valor daquele tempo depois que todos morreram — e passa o resto da narrativa revisitando lugares e memórias à luz dessa compreensão tardia.
É uma dramatização quase perfeita daquilo que Martin Heidegger chamava de autêntica confrontação com a finitude: para ele, é a consciência da própria mortalidade — o "ser-para-a-morte" — que permite a um sujeito assumir sua existência com seriedade, em vez de vivê-la de modo disperso e adiado. Frieren, sendo quase imortal, começa a série exatamente no modo disperso que Heidegger descrevia — e sua jornada é a lenta aquisição de uma sensibilidade temporal que os humanos ao seu redor sempre tiveram por necessidade e ela nunca precisou desenvolver. O sucesso da obra, numa década marcada por ansiedade coletiva com o tempo (produtividade, otimização, medo de "perder" a própria vida), não parece coincidência.
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Chainsaw Man e a dignidade dos pequenos prazeres num mundo absurdo

Por fim, Chainsaw Man — a obra mais deliberadamente caótica desta lista — segue um protagonista cujos objetivos de vida são declarados, sem ironia, como comer pão com geleia e tocar no peito de uma garota. Num gênero acostumado a heróis movidos por grandes causas, essa escolha é quase um manifesto filosófico disfarçado de piada: quando o mundo ao redor é absurdo, violento e indiferente ao sentido (a série mata personagens queridos sem o peso dramático costumeiro do gênero), talvez a resposta mais honesta não seja inventar um propósito grandioso, mas defender, com a mesma seriedade, o direito aos pequenos prazeres concretos.
Há aqui um eco nítido do absurdismo de Albert Camus: diante de um universo que não oferece sentido garantido, a resposta não é o suicídio nem a fuga para uma fé consoladora, mas a revolta lúcida — continuar vivendo, e até com alegria, precisamente sem a garantia de sentido último. Chainsaw Man não cita Camus, claro, mas encena algo estruturalmente parecido: um protagonista que escolhe seus pequenos prazeres não apesar do absurdo ao redor, mas como a única forma disponível de dignidade dentro dele.
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Por que isso importa

Nenhuma dessas seis obras foi escrita como tratado filosófico, e seria um exagero (e um desserviço a elas) tentar encaixá-las à força em sistemas que não tinham a intenção de ilustrar. Mas o fato de que, independentemente, elas convergiram — cada uma a seu modo — para perguntas sobre liberdade, violência cíclica, compaixão, ressentimento coletivo, finitude e sentido num mundo absurdo diz algo sobre o momento cultural que a última década atravessou. Não é acidental que uma geração que cresceu sob ansiedade climática, crises econômicas recorrentes e a sensação de viver dentro de sistemas que ninguém escolheu tenha se reconhecido, em massa, em histórias sobre pessoas presas atrás de muros, perseguidas por maldições feitas da própria negatividade humana, ou aprendendo tarde demais a dar valor ao tempo que passa.
A filosofia não precisa validar o mangá como "arte séria" para levá-lo a sério como sintoma. Às vezes, o que uma cultura mais lê e mais assiste é exatamente o lugar onde ela está, sem perceber, processando as perguntas que ainda não conseguiu formular em outro registro.

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